Misticismo em São Luís

Posted by Italo Stauffenberg Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

Welder Rodrigues e Jovane Nunes representando o obreiro e o pastor picaretas, respectivamente

Sorria e talvez amanhã você descubra que a vida ainda vale à pena. Já diz o trecho da música Smile, composta pelo eterno Rei do Cinema Mudo, Charlie Chaplin. E em matéria de sorrir a Cia. Os Melhores do Mundo são peritos em boas dosagens de endorfina, pois sorrir não custa nada e nos faz muito bem. E foi causando uma overdose de risos que o grupo brasiliense de teatro se apresentou em São Luís, nos dias 15 e 16 de agosto de 2014, no Centro de Convenções Gov. Pedro Neiva de Santana (Cohafuma).
Trazendo para a capital maranhense o espetáculo Misticismo, a trupe formada por Adriana Nunes, Adriano Siri, Jovane Nunes, Ricardo Pipo, Victor Leal e Welder Rodrigues aprontou poucas e boas com os personagens que dão vida as principais religiões do mundo.
Organizado em cinco enquetes, o espetáculo de humor passeia entre o hinduísmo, o espiritismo, o catolicismo, a umbanda e o protestantismo. Com texto de Jovane Nunes, Misticismo é uma crítica as lideranças eclesiásticas que, muitas vezes, mascaram certos problemas e, de forma libidinosa, corrompem a fé dos seus fiéis tratando-os com produtos de massa.
O espetáculo começa com Welder Rodrigues, Adriana Nunes e Adriano Siri. Welder dá vida ao magistral guru picareta Bhaguiva Shalla, que persuade a ingênua Vânia (Adriana Nunes) fazendo-a se desfazer de todos os seus bens, marido, filho e render-se a paixão descomunal pelo guru de elasticidade duvidosa. Sem sombras de dúvidas, Bhaguiva Shalla é a melhor personagem de todo o espetáculo e a pareceria com Adriana Nunes é a “fórmula do sucesso” do grupo brasiliense, se assim podemos dizer. Aliás, a dupla Adriana e Welder também são conhecidíssimos por interpretarem o casal atrapalhado e grotesco Jaja e Juju, que por alguns anos fizeram parte do elenco do enfadonho programa Zorra Total. Afranio, marido de Vânia na primeira enquete do espetáculo, não deixa a peteca cair e garante muitas risadas ao público fazendo a linha de marido roubado e traído.

Missa Redonda, quadro de humor que satiriza os programas católicos

O que faz o espetáculo ser ainda melhor é a inserção de elementos regionais no texto. Por exemplo, em vários momentos o grupo adapta situações características das cidades em que se apresentam para que o público possa ter maior identificação. Em si tratando de Maranhão, a família Sarney, o Guaraná Jesus, o Armazém Paraíba, o Bar do Nelson e o time de futebol Sampaio Corrêa não poderiam faltar. A segunda enquete aborda o espiritismo e traz ao palco Jovane Nunes e Victor Leal em um dueto que, por vezes, se torna cansativo. Não que o texto seja ruim ou que as piadas não sejam boas e nem que o tema seja abordado com desprezo ou arrogância, mas é que a dupla fica aquém dos demais. O que não tira o brilho de todo o espetáculo, mas esta poderia ser uma enquete melhor elaborada haja vista que temas transcendentais dão boas risadas.
A próxima enquete reúne Victor Leal, Ricardo Pipo e Jovane Nunes satirizando o catolicismo por meio do programa Missa Redonda em que os cardeais apresentam a plateia situações diversas e cômicas do meio eclesiástico. Em algumas tomadas, Welder Rodrigues aparece interpretando um coroinha “meio afeminado” e Adriana Nunes uma noviça rebelde. O quadro é bem divertido e Victor Leal lidera com eficiência todo o quadro. A umbanda, religião afro-brasileira é representada na velha forma de sempre. O despacho numa encruzilhada com vela, galinha preta e cachaça. O que a torna divertida são os elementos exteriores que complementam a cena, como o pedido pela saída do rebaixamento do Flamengo. Adriano Siri representa a pomba-gira, salientando toda a sua protuberância corpórea em uma compacto vestido vermelho e cabelos a la Maria Betânia.
Por fim, a enquete sobre o protestantismo é encenada por Jovane Nunes e Welder Rodrigues. Na cena, Jovane é um pastor picareta Maciel e Welder o obreiro pilantra Oliveira. Ambos esquematizam possíveis possessões para poderem tirar mais dinheiro dos fiéis. O que eles não sabiam é que o plano de “tirar o capeta” de um ator contratado por eles foi por água abaixo quando um homem “possivelmente” possesso aparece do nada. Em Misticismo não há como não rir. E sorrir se torna eufemismo diante de uma trupe que há 19 anos faz o brasileiro rir um pouquinho mais diante de todas as mazelas, crenças religiosas e situações cotidianas que todos nós enfrentamos. 

Welder Rodrigues é o guru pilantra Bhaguiva Shalla

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2011 por Natalia Araújo 2013 por Allan Penteado. Exclusivamente para o blog Manuscrito. Cópia parcial ou integral é totalmente proibida.