As contradições no roteiro de Se Eu Ficar

Posted by Italo Stauffenberg Marcadores: , , , , , , , , ,


Filme baseado no livro Se Eu Ficar, de Gayle Forman retrata a história de amor de um casal de adolescentes que tem como pano de fundo a morte e as incertezas da vida


A indústria hollywoodiana está em polvorosa com as adaptações de best-sellers literários para a sétima arte. Prova disso é o enorme sucesso da saga Crepúsculo, Jogos Vorazes e Divergente. Nunca esteve tão em alta retratar a esfera juvenil. E o motivo não poderia ser outro: é rentável. Escritores anônimos como Stephenie Meyer (Crepúsculo) e John Green (A culpa é das estrelas) faturaram milhões com suas publicações, alcançaram projeção internacional e assistiram a enorme repercussão das adaptações dos seus livros para o cinema. E outra franquia literária de enorme sucesso nos Estados Unidos, Se Eu Ficar, de Gayle Forman, conquistou as telonas e está em cartaz em quase todos os cinemas do país. Em São Luís, o filme é exibido no Cinépolis, UCI Kinoplex e CineSystem.
Se Eu Ficar (no inglês, If I Stay) retrata a história de Mia Hall (Chlöe Grace Moretz), uma jovem menina violoncelista que prestes a entrar para a Julliard School, mais importante escola de música dos Estados Unidos, sofre um grave acidente automobilístico que a deixa em coma beirando a morte. No acidente, os pais e o irmão de Mia morrem. A história narra à experiência extracorpórea de Mia, que após o ocorrido começa a vagar pelo hospital enquanto seu corpo moribundo está acamado. Nesse ínterim, Mia reflete em várias situações de sua vida e confabula se viver, no caso ficar, é a melhor opção já que seus entes queridos se foram.
A história poderia ser mais interessante. Sim, poderia. Gayle Forman, colaboradora do jornal The New York Times, apresenta em 224 páginas uma Mia tímida e sem expressão, que nasceu em uma família de músicos roqueiros, mas que viu o despertar musical nos acordes clássicos do violoncelo. Denny Hall (que no filme é interpretado por Joshua Leonard) é ex-vocalista de uma banda de rock. Com as responsabilidades paternas e o compromisso em criar dois filhos, Denny resolve largar o sonho da adolescência e se torna professor de inglês. Kat Hall (interpretada por Mireille Enos) é outra ex-roqueira que trabalha em uma agência de viagens de sua cidade, Portland, no Óregon. A mãe dedicada e descolada vive controlando os impulsos nervosos do filho mais novo, Teddy Hall (Jakob Davis), um garotinho loiro bastante travesso.
Contrapontos -
Seria esta a família perfeita para todo adolescente. Pais músicos, descolados e isentos de qualquer caretice, mas para Mia isto era o fim. Muito amiga de Kim Schwin (Liana Liberato), Mia confidencia grande parte de sua vida monótona a ela até que é atraída por Adam Wilde (Jamie Blackley), o típico garoto popular do colegial e que também toca numa banda de rock. Uma menina tímida e um garoto popular. Alguém se lembra desse tipo de enredo em outras produções? Em Um Amor Para Recordar (Nicholas Sparks), a doce e nada popular Jamie Sullivan é destinada a mudar a vida do bad boy Landon Carter e ambos se apaixonam. Mas, não é só nessa comparação que o filme se limita. Há quem diga que ele se assemelha ao avassalador A culpa é das estrelas. Eu digo que não! John Green foi extremamente inteligente ao retratar a história de dois adolescentes cancerosos que, vítima do infortúnio do destino, são cientes de que algum deles vai morrer primeiro e vivem cada dia como se fosse o último. A paixão do casal desperta no público um sentimento de proximidade e o mesmo não acontece em Se Eu Ficar.
No livro, Mia é apática e vive em prol do namorado. Ciente de que toda a sua família havia sido vitimada no acidente ela não se preocupa, por um momento sequer, que não teria mais os pais quando acordasse do coma. Já na adaptação para o cinema, ela é mais ativa e não vive a mercê dos amores de Adam. No longa-metragem, o casal Chöe e Jamie não consegue prender a atenção do público, pois não há química entre eles. Apesar de Chlöe Grace Moretz já ter apresentado personagens incríveis no cinema, como em Kick-Ass e Carrie, ela não consegue o mesmo feito em Se Eu Ficar. Sem sombras de dúvidas, a Mia do filme é mais interessante que a do livro, já o Adam do livro é mais interessante que o do filme. A versão livresca de Adam é explosiva, enérgica, pró-ativa, já a cinematográfica é romântica, simplista e conformada com a situação da namorada.
Quem já leu o livro certamente perceberá que o filme não foi fidedigno. As mortes do pai e do irmão de Mia foram alteradas, o primeiro beijo foi antecipado, não há o desenvolvimento da história de Kim, os planos de Adam para ver Mia a qualquer custo no hospital não foram encenados e outros tantos que não vale a pena citar. Você precisa ler e assistir ao filme para perceber.
Apesar de todas as situações que envolvem a trama de amor, Se Eu Ficar é uma boa pedida para quem gosta de dramas adolescentes. O filme é capaz de fazer meninos e meninas caírem aos prantos, afinal de contas, a história é forte. A trilha sonora também é bastante interessante, pois há canções que misturam o rock com a música clássica. Say Something, canção composta por Ian Axel, Chad Vaccarino e Mike Campbell e que foi interpretada em parceria pela cantora Christina Aguilera e a dupla A Great Big World puxa todo o filme trazendo uma carga de sentimentos e emoções profundas que só a música é capaz de proporcionar.
Uma segunda edição da história já foi escrita por Gayle Forman. Pra Onde Ela Foi já foi lançado nos Estados Unidos e, em breve, chegará ao Brasil. O segundo livro conta a história pela ótica de Adam, já estabelecido na carreira musical e um grande astro de rock. Se Eu Ficar  foi traduzido por Amanda Moura e é distribuído pela Editora Novo Conceito. O filme é dirigido por R. J. Cutler (Nashville), roteiro adaptado de Shauna Cross, produção executiva de Gayle Forman, produção da New Line Cinema e Metro Goldwyn Mayer e distribuição pela Warner Bross.

Crítica publicada no jornal O Estado do Maranhão, no dia 17/09/14




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